Para ser um cão de busca e resgate é preciso ser feliz

Cães de busca e resgate de Santa Catarina aprendem a encontrar pessoas brincando

Bombeiros militares utilizam animais da raça Labrador em operações de salvamento e se tornaram referências nacionais na área de cinotecnia

Foto: Anderson Coelho/ND


Para ser um cão de busca e resgate é preciso ser feliz. Esse é objetivo dos treinos ministrados pelos bombeiros cinotécnicos, especialistas na ciência responsável pelo estudo da anatomia, comportamento, psicologia, fisiologia, e outros aspectos dos cães. Desenvolvida em Xanxerê, no Oeste do Estado, a divisão de cinotecnia do Corpo de Bombeiros se espalhou por outros batalhões do Estado e atualmente 10 cães estão preparados para atuar em buscas e resgates, tornando Santa Catarina referência nessa área de salvamento.

Os cães utilizados pelo Corpo de Bombeiros de Santa Catarina são da raça Labrador, apenas a sétima no ranking dos cachorros mais inteligentes, atrás de raças como o Border Colie (1º), o Poodle (2º) e o Pastor Alemão (3º). Porém, os labradores têm características específicas para esse tipo de ação. "É um cão que gosta muito de água e de gente. Ele ama as pessoas e isso é o que a gente busca", resume o sargento Evandro Amorim, condutor de Ice, um labrador de nove anos de idade que se tornou o primeiro cão guarda vidas do Brasil.


Apesar de atuarem em situações de extremo estresse para os humanos, os cães precisam estar felizes durante as ações de busca e salvamento. Por isso, o treino consiste basicamente em brincar com o animal. "O treinamento precisa ser lúdico. Com o animal, você não consegue convencer pela palavra, então condicionamos ele desde pequeno a procurar a pessoa. Entrar no meio da mata para nós, humanos, pode ser cansativo, mas para o cão é um parque de diversões", compara.

Se a felicidade é a motivação que o cachorro precisa para encontrar a pessoa, o condutor resgata literalmente a infância, ao correr, emitir sons e utilizar brinquedos e até panos para fazer um cabo de guerra com o animal. "Voltamos a ser criança e chamamos o cão para a brincadeira. É o momento mais feliz da vida dele. É quando ele fica sabendo que a pessoa traz muitos momentos alegres para ele", explica Amorim.


Quando o condutor cessa a interação, a primeira reação do cão é latir. Essa situação é repetida diversas vezes nos treinos, e durante as buscas, o latido repetido funciona como um sinal de alerta de que, naquele local indicado pelo cão, pode estar uma pessoa desaparecida, conforme a natureza do desastre (soterramento, desabamento, afogamento, desaparecimento, etc). "Ensinamos o cachorro a acertar e reforçamos o acerto com a premiação que ele gosta", ensina Amorim.

A empatia entre cão e condutor também são fundamentais neste processo de aprendizagem. Por isso, um cão de busca e resgate passa a morar com o condutor desde as primeiras semanas de vida até após a aposentadoria . "Não é como se fosse (da família). O cão é um membro da família", completa. Em casa, os cães recebem alimentação duas vezes ao dia e uma suplementação alimentar a base de aminoácidos. Tudo é custeado pelo Estado, que também paga eventuais despesas com veterinário. 

Animais precisam de certificação de qualidade


Em Itajaí, a reportagem do ND acompanhou um treino do labrador Marley, de um ano e oito meses, que tem como condutor o soldado Willian Valdeley. O cão está sendo treinado para atuar na região da Grande Florianópolis, mas para isso, precisará ganhar a certificação, que garante um padrão de qualidade para o animal. 

"O Marley é filho de um cão de busca e assim que ele entrou na minha vida não nos separamos mais. Criamos um vínculo muito grande", relata Valdeley, que espera concluir o trabalho em alguns meses, pois não há um período determinado de treinos a ser executado antes da busca pela certificação, já que cada animal tem um tempo próprio de aprendizado. 

Comandante do Corpo de Bombeiros de Jaraguá do Sul e instrutor de cinotecnia, o tenente Tiago Domingos explica que o cão precisa passar por duas etapas de provas para obter a certificação. A primeira é a prova de obediência e destreza. "Avaliamos se o condutor tem controle sobre o cão e se o animal presta atenção aos comandos e que não vai executar algo que fuja ao controle", explica.


A segunda etapa é a prova de busca e resgate. Uma área de 30 mil a 50 mil metros quadrados é delimitada e o animal dispõe de 30 minutos para encontrar as vítimas, alertando através do latido a presença delas para que as equipes de socorro possam fazer o atendimento. Existem três níveis de certificação: regional, nacional e internacional. 

Em Santa Catarina, a certificação é feita pela coordenadoria do serviço de cães do CMBSC. A prova nacional é certificada pela Ligabom (Conselho Nacional dos Corpos de Bombeiros Militares do Brasil), que realiza prova anualmente junto com o SENABOM (Seminário Nacional dos Bombeiros). 

Já a certificação internacional é feita pela IRO (International Rescue Organization ), entidade dirigida pela ONU (Organização das Nações Unidas) e sediada na Áustria, com mais de 30 anos de atuação. "A corporação dos bombeiros militares de Santa Catarina está filiada a IRO e anualmente eles enviam juízes e toda uma estrutura para que o Estado sedia essa prova com cães de toda América Latina", completa Domingos. 

Aposentado, Ice é exemplo para nova geração


Aposentado desde setembro de 2018, o labrador Ice foi o primeiro cão guarda vidas do Brasil. Por duas temporadas, ele atuou na praia de Cabeçudas, em Itajaí. Certificado oito vezes para trabalho de buscas e resgates, o cachorro tem 83 missões no currículo, entre elas as buscas aos desaparecidos na tragédia de Mariana, em Minas Gerais. 

Ice começou a ser treinado com 45 dias de vida em Xanxerê, no Oeste do Estado. Pertencente a uma ninhada de nove filhotes, logo "escolheu" o sargento Evandro Amorim como pai, pois é assim que os cães se identificam com seus "donos", ou condutores, no caso dos cães de busca e resgate. "Ele era todo branquinho, por isso ganhou o nome de Ice (gelo, em inglês). Nem parecia ser tão esperto, mas onde eu ia ele vinha atrás", conta Amorim 

O sargento passou a trabalhar com cães por acaso após 20 anos de atuação como socorrista nas ambulâncias do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina. "Fiz o curso de cinotécnico e me identifiquei muito. Nem eu esperava", conta Amorim, apesar de ter convivido com cachorros desde a infância.


Depois da primeira aproximação, Ice ficou na casa de Amorim por dois meses até iniciar os treinos de capacitação para buscas de pessoas. Diferente dos cães da Policia Civil, que são treinados para encontrar drogas, procurar pessoas, vivas ou mortas, é o objetivo dos treinos. "Eles são craques em captar feromônios", destaca Amorim, sobre as substâncias químicas produzidas pelo organismo que são farejadas pelo cão.

Em pouco mais de oito anos de atuação, a missão mais difícil de Ice foi a busca pelos desaparecidos do desastre ambiental de Mariana. Foram sete dias de trabalho pesado, encontrando pedaços de corpos arrastados pela lama de rejeitos. O trabalho de Ice foi essencial para descartar buscas em áreas atingidas. "Quando chegamos lá o pessoal achava que a maioria do pessoal estaria no distrito de Bento Rodrigues, mas depois que ele encontrou um corpo distante dois quilômetros daquele local, e os trabalhos acabaram concentrados na área apontada por ele", explica Amorim. 

Outra missão que Ice mostrou habilidade foi cumprida em Balneário Camboriú. O cão encontrou o corpo de um usuário de drogas que havia se refugiado na mata. "Ele ficou três dias desaparecido e fomos chamados. Não demorou cinco minutos e o Ice achou o corpo tombado, sem vida, em um local que já havia sido vistoriado. Ou seja, a efetividade do olfato do cão é muito maior que nossa capacidade de visão", relata Amorim.


Inspirado em Pelé, o maior jogador de todos os tempos, Amorim decidiu aposentar Ice no auge, aos nove anos, depois que o cão contraiu uma bactéria que causou problemas na próstata. O organismo do cão não deu uma resposta eficiente para o tratamento convencional e o jeito foi apelar para a medicina alternativa (ozonioterapia e hemoterapia), o que deu resultado. "Como foi difícil tratar, a veterinária aconselhou e achamos melhor aposentá-lo até para evitar uma nova bactéria", conta.

Atualmente, Ice participa dos treinos realizados com outros cachorros e de ações sociais, como o projeto de Cinoterapia, uma terapia com cães desenvolvida em conjunto com a equipe de assistência social do Hospital e Maternidade Marieta Konder Borhaussen, na cidade de Itajaí.

CRISTIANO RIGO DALCIN, FLORIANÓPOLIS

 

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