segurança

Estrutura das barragens de contenção de cheias preocupa população e lideranças do Alto Vale

Elisiane Maciel/ Diário do Alto Vale

A tragédia recente de Brumadinho junto de outras dúvidas antigas, tem causado medo na população e alarmado lideranças do Alto Vale quanto à segurança das barragens de contenção de cheias da região. Uma das situações mais preocupantes é a de José Boiteux onde já foram constatados problemas nas comportas e parte da estrutura nunca foi concluída.

De acordo com o prefeito, Jonas Pudewell, o receio é de que a barragem se rompa causando uma grande tragédia. Segundo ele, no local houve depredação por parte dos indígenas e a comportas que fazem a drenagem da água estão sem funcionamento há algum tempo. Ele contou ainda que a estrutura está abandonada e as cabeceiras nunca foram concluídas.


"Eu tenho muito medo que a nossa barragem, que é a maior do Brasil em contenção de cheias, venha a romper. Se der uma chuva e encher de água ninguém da região dorme tranquilo, primeiro que as comportas não estão funcionando como deveriam, não adianta alegarem que estão porque é mentira, na outra vez veio um caminhão aqui para ajudar a abrir, e eu acompanhei. Mas vai que a barragem enche e que não se consegue abrir as comportas? A água vai começar a vazar por cima e se isso acontecer, as cabeceiras lá na saída ainda não têm a estrutura pronta, estão inacabados, isso inclusive é relato da Defesa Civil".


Jonas explicou que a barragem suporta 356 milhões de m³ de água quando está cheia e que por esse motivo, a preocupação fica ainda maior se houver rompimento.

"É um número exorbitante, tanto que eu sobrevoei ela uma vez com os bombeiros, quando estava cheia e dá muito medo.  Além disso, segundo relato de pessoas, ela está com problemas e eu me preocupo muito, até porque lá em 1981 estourou só uma secadeira dela e olha o que deu na região do Vale e Alto Vale, então imagine ela cheia e dar um problema, a catástrofe seria imensa".


Ele disse ainda que a barragem não traz benefício nenhum para José Boiteux, mas sim prejuízo, já que quando ela fica cheia, acaba alagando pontos no município.


"Para nós aqui de José Boiteux essa barragem não vale nada, ela só traz prejuízos, porque quando está cheia ela

inunda as estradas e depois, quando a água baixa quem tem que arcar com as despesas para arrumar o que foi

danificado somos nós. Na verdade essa barragem beneficia só Blumenau".


Ele finalizou dizendo que já foram feitas diversas reuniões, inclusive com o com o Ministro da Integração Nacional à época, para que os estudos fossem feitos e o problema resolvido.

A segurança da Barragem Norte também preocupa moradores de outros municípios como a professora Silvana Mara Cristóvão da Silva, de Ibirama. Segundo ela, os relatos são de que a estrutura está danificada e abandonada.


"Eu só conheço a Barragem Norte por fotografia, mas as pessoas que viram dizem que ela tem um volume de água descomunal e que ela está abandonada. Aí eu fico pensando, como é que as cidades que ficam abaixo da barragem não se interessam em saber qual é a real situação dela? Principalmente porque nós não estamos imunes à desastres e tragédias em todos os sentidos, e não falo só na questão de ter uma rachadura, mas também a falta de segurança, onde qualquer pessoa pode ir lá e fazer um atentado contra a estrutura".


Ela disse ainda que inclusive pessoas com formação na área de Engenharia já afirmaram que um possível rompimento poderia ser catastrófico.


"Já conversei com pessoas que têm estudo de Engenharia e Arquitetura e me disseram que quando ela está com o volume total, se ela rompesse iria alcançar toda a cidade de Ibirama. Muitos podem achar que isso não existe, que a gente está impressionado com as tragédias recentes, mas isso pode acontecer em qualquer lugar. E o que eu acho mais incrível, é que apesar de todos esses boatos, os administradores da região não queiram saber o que está acontecendo. Então a pergunta da população seria qual a verdade sobre a estrutura, sobre o abandono, e qual o mito? Nós nos sentimos inseguros e sempre com medo".



Atuação do Ministério Público Federal na Barragem Norte


Em entrevista, o procurador do Ministério Público Federal, Dr. Alisson Nelicio Cirilo Campos, detalhou que a situação da Barragem Norte é bastante complexa e envolve diversas pessoas. Ele ainda reconheceu que para José Boiteux ela gera impacto negativo.

"De um lado tem a situação de que se a barragem não funcionar adequadamente, gera impacto direto em Blumenau já que ela serve justamente para a contenção das cheias, mas, por outro lado, quando ela é usada afeta José Boiteux, como aconteceu em 2014 na comunidade indígena. Então há uma tensão muito grande envolvendo a barragem".

O procurador explicou que neste caso, o papel do Ministério Público Federal é de atuar para que a barragem funcione adequadamente, a fim de evitar que ocorram problemas para as comunidades, principalmente, à população abaixo da barragem.

"Então o compromisso do MPF é primeiramente que a barragem funcione e também que haja a minoração do impacto para a população indígena".

Ele detalhou que a comunidade indígena autorizou a Defesa Civil a realizar reparos e ingressar no local, já que a barragem fica dentro da comunidade.

"Por outro lado, os indígenas pediram que a gente fizesse uma reunião que envolvesse o Ministério da Integração Nacional, e outros órgãos, para que ele cumprisse parte do acordo, celebrado em 2015, e que até então não havia sido cumprido".

A partir de então, o MPF articulou uma reunião em dezembro com o Ministério da Integração Nacional e demais órgãos, para que fosse tratado sobre o acordo.

"Porém, apesar de todos os órgãos terem comparecido, infelizmente o Ministério da Integração Nacional não encaminhou ninguém com o poder decisório para que fosse dado providências em relação ao acordo celebrado em 2015, então o representante que estava lá não tinha poderes além de ouvir. A reunião frustraria mais ainda, se não fosse tomada uma decisão de comum acordo onde foi formado um grupo de trabalho para análise da barragem".

Ele explicou ainda que a atuação do MPF se encerrou com a reunião e que a partir de agora o responsável por este caso será o procurador da república Dr. Anderson Lodetti.

"Neste caso o MPF não participará do grupo de trabalho, mas acompanhará e poderá ajudar da forma que cabe a ele. Então esse grupo atuará no sentido de que seja cumprido o acordo integralmente", disse.

Quanto a atuação, o procurador disse que durante este tempo todo, o MPF atuou de forma que as coisas acontecessem.

"Sempre articulando, fiscalizando, para que as coisas caminhassem num consenso, que não fosse necessário ação judicial de nenhum lado".

Os passos seguintes agora serão acompanhar a atuação do grupo de trabalho que deve durar de 90 a 180 dias. "Neste momento o MPF sai de cena e está nas mãos das pessoas diretamente envolvidas.


O que diz a Defesa Civil

De acordo com o secretário de Estado da Defesa Civil, João Batista Cordeiro Júnior, a preocupação com a barragem de José Boiteux é a operação. Com relação à segurança da estrutura, ele afirmou que ela foi avaliada e considerada como de baixo risco.

"A estrutura está boa e assim como as outras duas do Alto Vale, foi construída pelo método de enroncamento, onde ela é fixada em pedras, com o núcleo feito de argila e o restante todo de concreto, então é considerada de baixo risco e muito robusta".

Porém, mesmo com essa certificação de segurança, ele reconheceu que se qualquer uma das três barragens do Alto Vale se rompessem o resultado seria calamitoso.

"O perigo das barragens é potencial. Se por acaso houvesse o rompimento da de José Boiteux por exemplo, como ela tem 356 milhões de m³ de reserva, o dano seria bem severo, por este motivo a gente tem que estar sempre fazendo acompanhamento, avaliação e manutenção. Ainda quanto à isso, nós temos um plano de segurança da barragem e de ações de emergência".

Sobre a relação com os indígenas, João disse que houve bastante avanços com as tratativas e que foi permitido se fazer uma vistoria no local.

"A gente está com tratativas, fizemos bastantes avanços com eles e nos deixaram fazer uma vistoria no local. Foram vistas as necessidades de manutenção com relação aos comandos da barragem, a feitura do canal extravasor, que desde o término da obra isso não foi concluído, a questão também da necessidade de se fazer um estudo ambiental e social, já que quando se construiu a barragem não foi feito e quando é se faz operação uma série de comunidades ficam isoladas". Além disso, ele citou que precisam ser feitas algumas melhorias, como acessos mais altos e pontes. "Inclusive há uma determinação judicial que determina o repasse de recursos da União para que a Defesa Civil faça essas obras".

Sobre a segurança da Barragem Sul, de Ituporanga, já que algumas fissuras apareceram na estrutura há alguns anos, o secretário também informou que não existem riscos, que as manutenções estão em dia e que a ideia é de tornar as operações tecnológicas.

"Lá foi feita uma manutenção de todas as comportas recentemente e agora ela vai passar por uma manutenção na grade onde há a entrada de água para a barragem. E tanto nesta de Ituporanga como na de Taió, já que em José Boiteux há entraves, estamos fazendo projetos para que o acionamento das comportas dos canais extravasores sejam hidráulicos, porque hoje é mecânico e além disso, no futuro a gente pretende fazer a operação remota de todas as comportas aqui da Defesa Civil do Estado".

 

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

 




PUBLICIDADE

O JATV.com.br é um portal de informação 24 horas por dia e 365 dias por ano no ar. Presentes nas redes sociais, somos compatíveis com todos os dispositivos que dispoem de acesso à internet.

Endereço: Rua 29 de Dezembro, 643 - Sala 03 - Centro, Rio do Campo - SC, 89198-000
Telefone: (47) 3564-0318 | Email: contato@jatv.com.br

|